Como Usar Inteligência Artificial sem Terceirizar o Pensamento?

Aprenda como usar inteligência artificial para ampliar seu pensamento sem abrir mão da autonomia, do senso crítico e da capacidade de tomar decisões. A inteligência artificial pode ampliar nossa capacidade de pensar, mas não precisa ocupar o lugar da nossa autonomia.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Sentiora

10/7/20267 min ler

worm's-eye view photography of concrete building
worm's-eye view photography of concrete building

A tecnologia pode facilitar nossas escolhas, mas quem está aprendendo a pensar — e quem está apenas aprendendo a pedir respostas?

Existe uma cena que pode se tornar cada vez mais comum.

Você precisa escrever alguma coisa.

Abre uma inteligência artificial.

Você não sabe como começar, então pergunta.

Ela responde.

Você precisa tomar uma decisão.

Pergunta novamente.

Ela organiza os argumentos.

Você está estudando.

Ela explica.

Está com uma dúvida.

Ela responde.

Precisa conversar com alguém.

Pergunta o que deveria dizer.

Em poucos segundos, aquilo que parecia difícil fica mais simples.

E talvez seja justamente aí que exista uma pergunta que merece nossa atenção:

quando a inteligência artificial facilita tanto o nosso pensamento, como saber se continuamos pensando por nós mesmos?

No Artigo 41 — A inteligência artificial está nos ajudando ou pensando por nós?], investigamos justamente essa fronteira: a diferença entre utilizar a IA como uma extensão das nossas capacidades e permitir que ela ocupe o lugar da nossa autonomia.

Agora precisamos chegar um pouco mais perto da nossa própria rotina.

Porque talvez o problema não esteja na inteligência artificial.

Talvez esteja na maneira como aprendemos a usá-la.

A resposta pronta é tentadora

Pensar antes de perguntar dá trabalho.

Tentar escrever antes de pedir que alguém escreva dá trabalho.

Pesquisar diferentes opiniões dá trabalho.

Permanecer diante de uma dúvida sem resposta imediata também dá trabalho.

A inteligência artificial pode retirar boa parte desse esforço.

E isso é uma de suas grandes qualidades.

Mas existe uma diferença entre economizar esforço e evitar desenvolver uma capacidade.

Imagine uma pessoa aprendendo a escrever.

No começo, talvez ela precise de ajuda para organizar uma ideia.

Uma IA pode sugerir uma estrutura.

Ela pode mostrar uma palavra que a pessoa desconhecia.

Pode apontar um erro.

Pode explicar por que determinado argumento não está funcionando.

Nesse caso, existe aprendizado.

Agora imagine que essa pessoa nunca mais tente escrever.

Ela simplesmente descreve o que quer e pede que a IA faça tudo.

O resultado pode ser excelente.

Mas quem aprendeu a escrever?

Usar uma ferramenta não significa deixar de pensar

Existe uma ideia equivocada de que, para preservar nossa autonomia, deveríamos fazer tudo sozinhos.

Não é isso.

Nós aprendemos conversando.

Aprendemos lendo.

Aprendemos perguntando.

Aprendemos ouvindo quem sabe mais do que nós.

Aprendemos inclusive quando alguém discorda daquilo que pensamos.

A inteligência artificial pode fazer parte desse processo.

Podemos pedir:

“Explique de outra maneira.”

“Mostre um argumento contrário.”

“O que estou deixando de considerar?”

“Onde está a fragilidade desse raciocínio?”

“Me ajude a entender, mas não me dê a resposta pronta.”

Perceba a diferença.

Na primeira situação, pedimos que a IA pense por nós.

Na segunda, usamos a IA para pensar melhor.

Talvez a pergunta que fazemos à IA seja mais importante do que a resposta

Existe uma mudança simples que pode transformar nossa relação com a tecnologia.

Em vez de perguntar somente:

“Qual é a resposta?”

podemos começar a perguntar:

“O que eu deveria considerar para chegar a essa resposta?”

Parece uma diferença pequena.

Não é.

Quando pedimos apenas a solução, podemos encerrar o processo.

Quando perguntamos pelo caminho, continuamos participando dele.

Isso vale para praticamente tudo.

Estudo.

Trabalho.

Escrita.

Planejamento.

Pesquisa.

Decisões.

Até mesmo conflitos.

E quando usamos IA para tomar decisões pessoais?

Aqui a questão fica ainda mais delicada.

Imagine alguém perguntando:

“Devo terminar meu relacionamento?”

Ou:

“Devo aceitar esse emprego?”

Ou:

“Devo perdoar essa pessoa?”

A inteligência artificial pode ajudar a organizar os elementos da situação.

Pode mostrar perguntas que talvez não tenhamos feito.

Pode ajudar a enxergar contradições.

Pode apresentar diferentes perspectivas.

Mas existe algo que ela não pode viver no nosso lugar:

as consequências daquela escolha.

Ela não acordará naquela casa.

Não trabalhará naquele ambiente.

Não carregará aquela história familiar.

Não sentirá exatamente o que você sente.

Não viverá a relação que você está tentando compreender.

Por isso, talvez uma boa utilização da IA nessas situações não seja perguntar:

“O que eu devo fazer?”

Mas:

“Que perguntas eu deveria fazer a mim mesmo antes de decidir?”

Isso muda a posição da tecnologia.

Ela deixa de ser uma autoridade.

Passa a ser uma ferramenta de reflexão.

E se começarmos a pedir até nossas próprias palavras?

Existe outro território interessante.

Hoje podemos pedir à IA:

“Escreva uma mensagem para meu filho.”

“Responda meu chefe.”

“Explique para meu parceiro o que estou sentindo.”

“Escreva um pedido de desculpas.”

“Diga isso de uma maneira mais carinhosa.”

Tudo isso pode ser útil.

Mas existe uma pergunta que vale a pena fazer:

se outra inteligência encontra todas as palavras difíceis por nós, estamos realmente aprendendo a nos comunicar?

Talvez, em algumas situações, seja exatamente isso que precisamos.

Alguém pode estar tão emocionalmente envolvido que precisa primeiro organizar o que sente antes de conseguir falar.

A IA pode ajudar.

Mas talvez depois seja importante voltar ao próprio texto e perguntar:

“Isso realmente parece comigo?”

“Eu diria isso?”

“Estou usando essas palavras porque elas expressam o que sinto ou porque parecem bonitas?”

A diferença é sutil.

Mas é a diferença entre utilizar uma ferramenta e desaparecer dentro dela.

O risco de uma resposta que parece certa

Uma inteligência artificial pode apresentar uma resposta muito bem construída.

Pode ser clara.

Organizada.

Convincente.

E ainda assim estar errada.

Ou incompleta.

Ou inadequada para aquela situação específica.

Isso nos lembra de algo que não deveria desaparecer:

pensamento crítico.

Pensar criticamente não significa desconfiar de tudo.

Significa não entregar nossa capacidade de avaliação junto com a pergunta.

É verificar.

Comparar.

Questionar.

Buscar fontes quando necessário.

Perceber quando uma resposta parece genérica demais para uma situação específica.

E, principalmente, reconhecer quando não sabemos o suficiente para aceitar uma conclusão.

A IA também pode revelar aquilo que não sabemos sobre nós

Existe, porém, um lado muito interessante nessa relação.

Às vezes, conversar com uma IA pode nos ajudar a perceber pensamentos que estavam confusos.

Podemos escrever uma situação.

Ler uma resposta.

Discordar dela.

E, justamente ao discordar, perceber:

“Não. Não é isso que eu sinto.”

E talvez isso seja uma descoberta importante.

Nem sempre precisamos concordar com uma resposta para que ela tenha sido útil.

Às vezes, ela nos ajuda justamente porque provoca uma reação.

A questão passa a ser:

“Por que discordo disso?”

Essa pergunta nos devolve para nós mesmos.

Talvez devêssemos preservar algumas coisas

Se a inteligência artificial pode fazer tantas coisas por nós, talvez seja importante decidir conscientemente algumas que queremos continuar fazendo.

Pensar antes de pedir uma resposta.

Escrever algumas coisas com nossas próprias palavras.

Ler uma informação antes de pedir um resumo.

Tentar resolver um problema antes de pedir a solução.

Formar uma opinião antes de perguntar qual opinião deveríamos ter.

Conversar diretamente com alguém quando a conversa é humana demais para ser terceirizada.

Não porque a tecnologia seja ruim.

Mas porque determinadas capacidades precisam ser exercitadas para continuarem sendo nossas.

Existe uma diferença entre apoio e dependência

Uma pessoa que usa óculos não perdeu a capacidade de enxergar.

Ela encontrou uma ferramenta que amplia aquilo que seus olhos conseguem fazer.

Talvez possamos pensar na inteligência artificial de maneira parecida.

O problema começa quando deixamos de saber funcionar sem ela.

Quando não conseguimos mais começar um texto.

Quando não conseguimos mais pesquisar.

Quando não conseguimos mais organizar uma ideia.

Quando não conseguimos mais tomar uma decisão sem consultar uma máquina.

Quando a primeira reação diante de qualquer dúvida passa a ser:

“Vou perguntar para a IA.”

Talvez seja nesse momento que devamos parar e observar.

Não para abandonar a ferramenta.

Mas para perguntar:

“O que estou pedindo para ela fazer que eu ainda deveria aprender a fazer?”

E talvez exista uma regra simples

Não precisamos criar uma lista de regras para viver com inteligência artificial.

Mas uma pergunta pode nos acompanhar:

Depois de usar a IA, eu estou mais capaz ou mais dependente?

Se ela ajudou você a compreender um assunto, talvez você esteja mais capaz.

Se ajudou a enxergar uma possibilidade que não havia considerado, talvez esteja mais capaz.

Se ajudou a organizar seus pensamentos para que você pudesse tomar uma decisão consciente, talvez esteja mais capaz.

Mas se você já não consegue pensar, escrever, decidir ou pesquisar sem ela...

talvez alguma coisa esteja mudando na relação.

E talvez seja hora de recuperar um pouco do espaço que entregamos.

A tecnologia não precisa ser nossa adversária

Talvez exista uma falsa escolha entre confiar nos seres humanos ou confiar na tecnologia.

Não precisamos escolher um lado.

Podemos usar ferramentas extraordinárias sem transformar essas ferramentas em substitutas da nossa própria consciência.

Podemos pedir ajuda.

Podemos perguntar.

Podemos aprender.

Podemos usar inteligência artificial para fazer em minutos aquilo que antes levaria horas.

E ainda assim permanecer responsáveis pelaquilo que fazemos com essa facilidade.

Porque talvez a verdadeira autonomia não seja conseguir fazer tudo sozinho.

Talvez seja saber quando pedir ajuda sem esquecer que a escolha continua sendo sua.

O que você está terceirizando?

Talvez valha a pena olhar para sua própria relação com a inteligência artificial.

Não apenas perguntar quanto tempo ela economizou.

Perguntar também:

O que ela me ajudou a aprender?

O que ela me ajudou a enxergar?

O que ela fez por mim que eu poderia aprender a fazer melhor?

Em quais situações sua resposta ampliou meu pensamento?

E em quais situações apenas evitou que eu precisasse pensar?

Talvez algumas respostas nos deixem mais inteligentes.

E talvez outras apenas nos deixem mais confortáveis.

Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

A inteligência artificial pode ser uma ferramenta extraordinária.

Mas ela não precisa ocupar o lugar da nossa curiosidade.

Nem da nossa capacidade de duvidar.

Nem da nossa experiência.

Nem da nossa responsabilidade.

Nem da nossa voz.

Porque, no final, a pergunta mais importante talvez não seja:

“O que a inteligência artificial pode fazer por mim?”

Talvez seja:

“Que tipo de pessoa estou me tornando enquanto aprendo a usá-la?”

E essa resposta...

ainda é nossa para construir.

Para continuar investigando

[ A inteligência artificial está nos ajudando ou pensando por nós?]

[ O que significa confiar em alguém?]

O primeiro aprofunda a relação entre inteligência artificial e autonomia humana. O segundo investiga uma questão que se tornou ainda mais atual: o que significa confiar quando começamos a confiar cada vez mais em sistemas artificiais?