Por que me comparo tanto com outras pessoas?

Por que me comparo tanto com outras pessoas? Entenda as raízes da comparação e descubra como fortalecer sua própria percepção e autoestima no cotidiano.

AUTOCONHECIMENTO

Sentiora

9/3/20269 min ler

worm's-eye view photography of concrete building
worm's-eye view photography of concrete building

Talvez você já tenha vivido esta situação.

Você está relativamente bem com a sua vida.

Até encontrar alguém.

Um antigo colega conseguiu uma promoção.

Uma amiga começou um projeto novo.

Seu irmão comprou uma casa.

Seu primo parece ter construído uma carreira que deu muito certo.

Alguém da sua idade está viajando, estudando, empreendendo, casando, tendo filhos ou simplesmente parece saber exatamente o que está fazendo.

E então alguma coisa muda dentro de você.

A pergunta deixa de ser:

"Como estou?"

e passa a ser:

"Como estou em comparação com essa pessoa?"

Talvez você nem queira a vida dela.

Ainda assim, por alguns instantes, a sua própria vida parece menor.

É estranho porque, minutos antes, nada havia mudado.

Você continua sendo a mesma pessoa.

Sua história continua sendo a mesma.

Suas conquistas continuam existindo.

Mas, depois de olhar para o outro, alguma coisa dentro de você parece ter perdido valor.

Por que fazemos isso?

A comparação começa muito antes das redes sociais

É comum falar sobre comparação como se ela fosse um problema criado pelas redes sociais.

As redes realmente podem intensificar esse comportamento. Elas colocam diante de nós, com enorme frequência, imagens de conquistas, viagens, corpos, relacionamentos, carreiras e estilos de vida.

Mas a comparação é muito mais antiga.

Ela pode começar na escola.

Quem tirou a maior nota?

Quem foi escolhido para determinada atividade?

Quem é mais popular?

Quem aprende mais rápido?

Quem é elogiado pelo professor?

Quem entrou na faculdade que todos queriam?

Depois, a lógica pode continuar.

Na faculdade, comparamos desempenho, estágio, aparência, relacionamentos e oportunidades.

No trabalho, comparamos salário, cargo, reconhecimento, produtividade, promoção e trajetória profissional.

E, dentro da família, talvez a comparação ganhe uma dimensão ainda mais delicada.

"Seu irmão já conseguiu."

"Seu primo passou naquele concurso."

"Fulano, na sua idade, já tinha..."

Às vezes ninguém precisa dizer nada.

Nós mesmos fazemos a conta.

E ela pode acompanhar uma pessoa durante muitos anos.

Quando a comparação entra dentro de casa

Existe uma diferença entre ouvir sobre a conquista de alguém e sentir que aquela conquista diz alguma coisa sobre o nosso próprio valor.

É aí que a comparação pode machucar.

Um irmão pode se tornar a medida.

Um primo pode se tornar a referência.

Um colega de escola pode reaparecer anos depois e despertar uma sensação antiga.

Talvez você tenha crescido ouvindo que determinada pessoa era "mais inteligente", "mais organizada", "mais bonita", "mais bem-sucedida" ou "mais responsável".

Mesmo depois de adulto, algumas dessas comparações podem continuar vivas dentro da nossa maneira de nos enxergar.

E existe uma ironia nisso.

A pessoa que usamos como referência talvez nem saiba que ocupa esse lugar na nossa cabeça.

Ela está simplesmente vivendo a própria vida.

Mas nós estamos usando a trajetória dela para avaliar a nossa.

Comparar é sempre ruim?

Não.

A comparação também pode cumprir uma função.

Quando observamos outras pessoas, podemos descobrir possibilidades.

Podemos pensar:

"Eu também gostaria de aprender isso."

"Não sabia que era possível fazer dessa maneira."

"Talvez eu possa tentar."

Ver alguém avançar pode despertar inspiração, curiosidade e até nos ajudar a identificar desejos que ainda não havíamos percebido.

O problema começa quando a comparação deixa de ser uma fonte de informação e passa a ser uma sentença sobre quem somos.

Uma coisa é:

"Ela conseguiu. Talvez eu também possa tentar."

Outra é:

"Ela conseguiu. Então alguma coisa está errada comigo."

A primeira abre possibilidades.

A segunda diminui você.

O problema é que quase nunca comparamos histórias inteiras

Quando comparamos nossa vida com a de outra pessoa, existe uma injustiça escondida.

Nós conhecemos nossa própria história por inteiro.

Conhecemos nossas dúvidas.

Nossos fracassos.

Nossas contas.

Nossos medos.

As oportunidades que perdemos.

As decisões que adiamos.

Os dias em que não conseguimos fazer o que queríamos.

Mas, quando olhamos para outra pessoa, normalmente enxergamos apenas uma parte.

Uma promoção.

Um diploma.

Uma viagem.

Uma fotografia.

Uma casa.

Um relacionamento.

Um projeto que deu certo.

Uma publicação anunciando uma conquista.

Estamos comparando a nossa experiência completa com um recorte da experiência de outra pessoa.

Essa comparação dificilmente será justa.

As redes sociais tornam o recorte permanente

É aqui que as redes sociais entram.

Não como vilãs, mas como amplificadoras.

Antes, a comparação podia acontecer quando encontrávamos alguém na escola, no trabalho, em uma reunião familiar ou em um evento.

Hoje, podemos encontrar dezenas ou centenas de referências em poucos minutos.

E existe uma característica particular nisso:

as pessoas escolhem o que mostrar.

Não necessariamente por falsidade.

É natural compartilhar uma conquista, uma viagem, um aniversário, um projeto concluído ou um momento feliz.

O problema surge quando nossa mente transforma esses fragmentos em uma história completa.

Vemos alguém viajando e imaginamos que aquela pessoa está vivendo uma vida maravilhosa.

Vemos alguém prosperando profissionalmente e imaginamos que nunca teve dúvidas.

Vemos um casal feliz e imaginamos que o relacionamento é sempre assim.

Vemos alguém mudando de carreira e imaginamos que teve coragem enquanto nós permanecemos parados.

Mas não vemos os bastidores.

E, principalmente, não vemos a história inteira.

Existe uma pergunta escondida por trás da comparação

Talvez esta seja uma das perguntas mais importantes deste artigo:

"O que exatamente eu sinto que aquela pessoa tem e eu não tenho?"

Porque talvez você não queira a vida daquela pessoa.

Você pode estar desejando outra coisa.

A promoção do colega pode despertar seu desejo por reconhecimento.

A viagem da amiga pode revelar sua necessidade de liberdade.

O corpo de alguém pode despertar uma vontade de cuidar mais de si.

O negócio do seu conhecido pode revelar um desejo antigo de autonomia.

O relacionamento de outra pessoa pode mostrar que você sente falta de conexão.

A comparação, nesse sentido, pode ser uma espécie de pista.

Ela mostra onde alguma coisa dentro de nós reage.

O trabalho não é simplesmente parar de comparar.

É entender o que a comparação está tentando revelar.

"Estou atrasada"

Existe uma comparação especialmente cruel:

a comparação com o tempo.

"Na minha idade, eu já deveria ter conseguido."

"Todo mundo está avançando."

"Eu perdi tempo."

"Era para eu estar mais longe."

Mas quem decidiu qual deveria ser a velocidade da sua vida?

A escola cria determinadas idades.

A faculdade cria outras.

O mercado de trabalho cria expectativas.

A sociedade cria outras.

A família também.

Existe uma espécie de calendário invisível dizendo quando deveríamos estudar, trabalhar, casar, ter filhos, comprar uma casa, alcançar determinada posição e finalmente "estar bem".

Mas a vida real raramente respeita esse calendário.

Pessoas mudam de profissão.

Relacionamentos terminam.

Projetos fracassam.

Filhos mudam nossos planos.

Doenças, perdas, dificuldades financeiras e acontecimentos inesperados alteram trajetórias.

Algumas pessoas começam cedo.

Outras começam depois.

Algumas seguem uma linha relativamente estável.

Outras precisam reconstruir várias vezes.

Uma trajetória diferente não é necessariamente uma trajetória atrasada.

O que acontece quando a comparação vira identidade?

Existe um momento em que deixamos de pensar:

"Estou atrás nessa área."

e começamos a pensar:

"Eu sou inferior."

Essa mudança é profunda.

Uma dificuldade profissional passa a significar "não sou boa o suficiente".

Uma diferença financeira passa a significar "fracassei".

Um relacionamento que não aconteceu passa a significar "ninguém vai me escolher".

Uma conquista de outra pessoa passa a ser uma prova contra nós.

A comparação deixa de avaliar uma circunstância.

Ela passa a definir uma identidade.

E isso é perigoso porque nenhum resultado isolado consegue explicar o valor de uma pessoa.

Talvez você esteja comparando necessidades diferentes

Imagine duas pessoas.

Uma deseja estabilidade.

Outra deseja liberdade.

Uma quer crescer profissionalmente.

Outra quer reduzir o ritmo.

Uma quer reconhecimento.

Outra quer tempo.

Se elas olharem apenas para os resultados uma da outra, podem imaginar que estão fracassando.

Mas talvez estejam perseguindo coisas completamente diferentes.

É por isso que a comparação pode ficar especialmente confusa quando ainda não sabemos o que queremos.

No artigo anterior, perguntamos:

"Como saber o que realmente quero?"

Agora podemos perceber uma dificuldade adicional:

como descobrir o que queremos se estamos constantemente usando a vida dos outros como referência?

Talvez você esteja desejando uma vida que não escolheria se não tivesse ninguém para impressionar.

E quando a comparação vem de quem amamos?

É fácil falar sobre comparação quando pensamos em desconhecidos ou pessoas das redes sociais.

Mais difícil é quando ela vem de alguém que amamos.

Um pai que compara irmãos.

Uma mãe que compara primos.

Um familiar que pergunta por que você ainda não conseguiu o mesmo que outra pessoa.

Um amigo que, sem intenção de machucar, conta repetidamente suas próprias conquistas.

Às vezes não existe maldade.

Existe apenas uma cultura de comparação que aprendemos desde cedo.

Mas o efeito pode ser real.

Porque, quando alguém próximo parece estar vivendo aquilo que gostaríamos de viver, a comparação pode misturar inveja, culpa, admiração, vergonha e tristeza.

E podemos nos sentir culpados até por sentir isso.

Mas sentir não é escolher.

Uma emoção pode ser observada sem precisar se transformar em comportamento.

Talvez seja suficiente reconhecer:

"A conquista dessa pessoa despertou alguma coisa em mim."

E investigar o quê.

E se a comparação estiver mostrando uma necessidade legítima?

Nem toda comparação precisa ser eliminada.

Talvez ela esteja dizendo:

"Quero aprender."

"Quero mais autonomia."

"Quero ser reconhecida."

"Quero mudar de trabalho."

"Quero cuidar melhor de mim."

"Quero ter mais tempo."

"Quero voltar a sonhar."

Nesse caso, o problema não é a comparação em si.

O problema seria ignorar a informação que ela trouxe ou transformá-la em uma acusação contra nós mesmos.

Talvez possamos mudar a pergunta.

Em vez de:

"Por que eu não sou como essa pessoa?"

experimentar:

"O que a vida dessa pessoa despertou em mim?"

Essa pergunta não diminui o outro.

E também não diminui você.

Ela apenas transforma comparação em investigação.

Sua vida não precisa vencer a vida de ninguém

Existe uma ideia silenciosa de que estamos todos participando da mesma corrida.

Como se houvesse uma linha de chegada.

Como se existisse um ranking.

Mais dinheiro.

Mais sucesso.

Mais reconhecimento.

Mais viagens.

Mais seguidores.

Mais patrimônio.

Mais títulos.

Mais experiências.

Mas uma vida não é uma competição em que alguém precisa perder para você ganhar.

A pergunta mais importante talvez não seja:

"Estou melhor ou pior do que eles?"

E sim:

"Estou vivendo de uma maneira que faz sentido para mim?"

Isso muda completamente a régua.

Porque você pode estar atrás de alguém em uma área e exatamente onde gostaria de estar em outra.

Pode ter menos dinheiro e mais tempo.

Menos reconhecimento e mais autonomia.

Menos estabilidade e mais liberdade.

Ou pode querer exatamente o contrário.

Não existe comparação possível sem antes definir qual vida você está tentando construir.

Talvez seja hora de trocar a régua

Não precisamos prometer que nunca mais vamos nos comparar.

Provavelmente vamos.

Somos seres humanos.

Vamos encontrar pessoas mais bem-sucedidas em alguma área, mais bonitas em algum aspecto, mais rápidas, mais ricas, mais experientes ou simplesmente diferentes de nós.

A questão não é eliminar toda comparação.

É perceber quando ela começa a decidir quanto valemos.

Talvez você possa observar:

Estou olhando para essa pessoa porque ela me inspira ou porque preciso me sentir inferior a ela?

Estou desejando a vida dela ou alguma coisa que imagino que essa vida representa?

Estou comparando minha história inteira com um pequeno recorte da história de alguém?

Estou usando uma expectativa que pertence a outra pessoa para julgar minha própria vida?

O que essa comparação está tentando me mostrar sobre aquilo que eu quero?

Essas perguntas não fazem a comparação desaparecer.

Mas podem devolver a você o direito de interpretar a própria história.

Você não precisa estar no mesmo lugar que outra pessoa

Talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar.

A vida de outra pessoa pode estar indo muito bem.

E isso não significa que a sua esteja indo mal.

O sucesso de alguém não é uma prova do seu fracasso.

A conquista de alguém não apaga as suas.

O caminho de alguém não invalida o seu.

E o tempo de alguém não determina o seu.

Você pode admirar uma pessoa sem precisar se transformar nela.

Pode aprender com alguém sem transformar essa pessoa em sua régua.

Pode reconhecer que deseja algo diferente sem concluir que há alguma coisa errada com você.

Porque, no fim, talvez a questão não seja parar de olhar para os outros.

É voltar a olhar para si.

Para a sua história.

Para as suas circunstâncias.

Para aquilo que você valoriza.

Para aquilo que deseja.

E para a vida que está tentando construir.

Talvez seja justamente quando paramos de perguntar "onde estou em relação aos outros?" que conseguimos voltar à pergunta que realmente importa:

"O que eu quero fazer com a vida que é minha?"

E, depois de tantas perguntas sobre propósito, mudança, recomeço, desejo e comparação, talvez exista um outro problema esperando por nós:

o que acontece quando sabemos que precisamos seguir em frente, mas não encontramos mais energia ou vontade para fazê-lo?

Essa é a próxima investigação:

O que fazer quando perdi a motivação?