Por que precisamos tanto de segurança nas relações?

Entenda por que buscamos segurança nas relações e como rejeição, insegurança, controle, confiança e autonomia influenciam nossos vínculos.

RELACIONAMENTO

Sentiora

10/2/202610 min ler

No começo de uma relação, existe uma coisa que quase nunca conseguimos evitar: a dúvida.

Será que essa pessoa gosta de mim?

Será que está interessada?

Será que estou interpretando os sinais corretamente?

Será que devo me aproximar ou esperar?

Será que posso confiar?

Essas perguntas podem aparecer quando estamos conhecendo alguém, quando uma relação já existe ou até quando alguma coisa começa a mudar dentro dela.

E talvez exista uma razão para tantas buscas relacionadas a relacionamentos terem algo em comum.

Queremos saber.

Queremos entender.

Queremos ter alguma certeza antes de nos expormos.

Só que relações humanas não oferecem muitas certezas.

Não conseguimos controlar o que outra pessoa sente, pensa ou decide.

E talvez seja justamente aí que três necessidades humanas apareçam com força:

o medo de ser rejeitado, a vontade de encontrar um manual para se relacionar e a necessidade de sentir segurança.

Por trás de perguntas aparentemente diferentes, muitas vezes existe a mesma tentativa:

como posso me sentir seguro diante de algo que não consigo controlar?

Isso vale para tudo relacionamento, trabalho, dinheiro e saúde.

O medo de rejeição: quando não ser escolhido parece dizer quem somos

Ser rejeitado dói.

Isso não é uma descoberta particularmente surpreendente. A experiência de ser excluído, recusado ou deixado de lado pode afetar emoções, pensamentos e comportamentos. Pesquisas sobre rejeição mostram que a necessidade de pertencimento e aceitação social ocupa um lugar importante na experiência humana.

Mas existe uma diferença entre sentir a dor de uma rejeição e transformar essa rejeição em uma conclusão sobre o próprio valor.

“Essa pessoa não quer se relacionar comigo.”

é uma coisa.

“Essa pessoa não me escolheu porque eu não sou bom o bastante.”

é outra.

A segunda frase acrescenta uma interpretação à primeira.

E, quando fazemos isso repetidamente, uma experiência específica pode começar a ocupar um espaço muito maior dentro de nós.

Uma pessoa não correspondeu.

Nós sentimos que não somos desejáveis.

Alguém terminou.

Nós concluímos que não sabemos manter uma relação.

Alguém preferiu outra pessoa.

Nós pensamos que existe alguma coisa errada conosco.

A rejeição pode, então, deixar de ser apenas uma experiência entre duas pessoas e passar a funcionar como um julgamento sobre quem somos.

Isso ajuda a entender por que autoestima e relacionamentos não são assuntos completamente separados. Uma grande análise longitudinal encontrou uma relação recíproca entre autoestima e qualidade das relações sociais ao longo da vida: os vínculos podem influenciar a autoestima, e a autoestima também pode influenciar os relacionamentos.

[Artigo 9: Autoestima]

Isso não significa que uma relação determine nosso valor.

Significa que somos seres relacionais e que aquilo que acontece nos vínculos pode participar da maneira como nos percebemos.

Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas:

“Por que tenho medo de ser rejeitado?”

Mas:

“O que eu concluo sobre mim quando sou rejeitado?”

Quando queremos transformar relações em um manual

Existe outro padrão curioso nas buscas sobre relacionamentos.

As pessoas querem saber quanto tempo esperar para responder uma mensagem.

Quem deve procurar primeiro.

Quando dizer que está apaixonado.

Quanto tempo esperar depois de um encontro.

Como agir para não demonstrar interesse demais.

Como demonstrar interesse sem parecer desesperado.

São perguntas compreensíveis.

Quando estamos diante de algo importante e incerto, procuramos orientação.

O problema começa quando acreditamos que existe uma combinação correta de comportamentos capaz de garantir determinado resultado.

Como se houvesse uma sequência:

faça isso → espere aquilo → responda depois de tantos minutos → diga determinada coisa → e a relação dará certo.

Só que pessoas não funcionam como sistemas previsíveis.

A mesma frase pode aproximar duas pessoas e afastar outras.

Uma pessoa pode gostar de receber mensagens frequentes.

Outra pode sentir que está sendo pressionada.

Uma pode apreciar demonstrações espontâneas.

Outra pode precisar de mais tempo para criar intimidade.

Até a comunicação, que é fundamental para construir e manter vínculos, não pode ser reduzida a um conjunto universal de frases certas. Conversas podem aproximar, aprofundar conexões e também abrir espaço para conflitos quando não conseguimos expressar ou ouvir aquilo que realmente está acontecendo.

Talvez, então, exista uma pergunta escondida por trás da procura pelo manual:

“Se eu souber exatamente como agir, consigo evitar que a outra pessoa me rejeite?”

E essa é uma pergunta muito mais humana.

Porque não estamos apenas procurando uma regra.

Estamos tentando controlar a incerteza. O que é obviamente uma utopia.

A vontade de controlar aquilo que não podemos controlar

Quando gostamos de alguém, existe uma vulnerabilidade inevitável.

Podemos demonstrar interesse e não sermos correspondidos.

Podemos confiar e descobrir que a outra pessoa pensa diferente.

Podemos construir planos juntos e, algum tempo depois, perceber que queremos caminhos diferentes.

Podemos fazer tudo aquilo que consideramos correto e ainda assim não conseguir determinar o que o outro fará.

Essa é uma das partes mais difíceis das relações:

o outro continua sendo outro.

Ele tem vontade própria.

História própria.

Medos próprios.

Limites próprios.

Escolhas próprias.

E isso significa que nenhum manual consegue nos proteger completamente da possibilidade de perder.

Talvez seja por isso que algumas pessoas tentem transformar o relacionamento em um território cada vez mais controlado.

Precisam saber onde o outro está.

Com quem está.

Por que demorou.

Quem mandou determinada mensagem.

Por que mudou o jeito de falar.

O que significa aquele comportamento.

Em alguns casos, o medo pode crescer até transformar cuidado em vigilância e insegurança em controle.

Nesse ponto, a pergunta deixa de ser apenas “posso confiar?” e passa a envolver também autonomia e limites.

[PRÓXIMO TEMA DA SENTIORA — Limites nas relações]

Porque confiança não significa saber tudo sobre o outro.

E segurança não significa controlar tudo o que o outro faz.

Quando a necessidade de segurança vira ciúme

O ciúme também pode nascer desse desejo de segurança.

“E se ele encontrar alguém melhor?”

“E se ela estiver interessada em outra pessoa?”

“E se eu perder o lugar que tenho?”

“E se estiver acontecendo alguma coisa que não estou percebendo?”

Essas perguntas podem surgir mesmo quando não existe uma evidência concreta de que algo esteja acontecendo.

A mente tenta preencher o espaço que a incerteza deixou.

E, quando estamos inseguros, podemos começar a procurar informações que confirmem aquilo que tememos.

Uma mudança no tom de voz vira sinal.

Uma demora vira suspeita.

Uma conversa vira motivo para preocupação.

Um comportamento diferente ganha uma explicação que talvez nunca tenha sido confirmada.

Isso não significa que toda preocupação seja imaginária.

Existem situações em que a confiança realmente é quebrada.

Existem mentiras.

Existem comportamentos desrespeitosos.

Existem relações em que há controle e violência.

Por isso, também não devemos transformar toda percepção de desconforto em “insegurança da pessoa”.

O desafio é justamente distinguir aquilo que está acontecendo objetivamente daquilo que nosso medo está acrescentando à situação.

Essa distinção exige observação, comunicação e, principalmente, espaço para que a realidade seja conhecida antes de receber uma conclusão.

O que significa, afinal, sentir segurança em uma relação?

Talvez segurança não seja ter certeza de que nunca seremos abandonados.

Nem ter garantia de que a pessoa nunca mudará de ideia.

Nem saber onde ela está a cada momento.

Nem receber mensagens o dia inteiro.

Talvez segurança tenha mais relação com saber que podemos existir dentro daquela relação sem precisar abandonar quem somos.

Poder falar.

Poder perguntar.

Poder discordar.

Poder dizer não.

Poder ter interesses próprios.

Poder manter vínculos fora daquela relação.

Poder reconhecer que algo nos incomodou.

Poder admitir medo sem transformar o outro em responsável por eliminá-lo.

E, principalmente, poder confiar sem precisar controlar.

Essa diferença é fundamental.

Controle tenta eliminar a incerteza.

Confiança aprende a conviver com algum grau dela.

Segurança também envolve autonomia

Existe uma contradição que pode aparecer nas relações.

Queremos proximidade, mas também precisamos de espaço.

Queremos intimidade, mas continuamos sendo indivíduos.

Queremos compartilhar a vida, mas não deixamos de ter nossos próprios pensamentos, interesses, amizades, objetivos e escolhas.

Quando a relação começa a exigir que uma pessoa desapareça para que a outra se sinta segura, alguma coisa importante está sendo perdida.

Uma relação não precisa eliminar a individualidade para ser profunda.

Pelo contrário.

Duas pessoas podem estar muito próximas e ainda assim continuar sendo duas pessoas.

É justamente por isso que limites não são necessariamente barreiras contra o amor.

Às vezes, são aquilo que permite que duas pessoas convivam sem que uma precise ocupar completamente o espaço da outra.

O amor precisa nos dar todas as respostas?

Talvez aqui apareça uma das grandes confusões sobre o amor.

Esperamos que amar alguém finalmente resolva nossa insegurança.

Que a pessoa certa nos faça sentir suficientemente importantes.

Que a relação certa elimine o medo da rejeição.

Que o amor ofereça a certeza que não conseguimos encontrar sozinhos.

Mas nenhuma pessoa consegue assumir essa responsabilidade inteira.

Uma relação pode oferecer carinho, apoio, companhia, intimidade e segurança.

Mas não consegue garantir que nunca teremos medo.

Não consegue garantir que nunca haverá conflitos.

Não consegue garantir que o futuro permanecerá igual.

E talvez isso não seja uma falha do amor.

Talvez seja simplesmente uma característica da vida.

Amar alguém não significa ter controle sobre essa pessoa.

E ser amado não significa deixar de ser responsável por si mesmo.

Quando precisamos constantemente de provas

Existe uma diferença entre gostar de receber demonstrações de carinho e precisar delas para conseguir acreditar que somos amados.

Uma mensagem carinhosa pode fazer bem.

Um abraço pode tranquilizar.

Uma demonstração de afeto pode fortalecer a sensação de proximidade.

Mas, quando precisamos constantemente de novas provas, nenhuma prova parece suficiente por muito tempo.

A confirmação chega.

Sentimos alívio.

Depois surge uma nova dúvida.

E precisamos novamente de confirmação.

Nesse ciclo, o problema talvez não esteja apenas no comportamento do outro.

Pode existir uma necessidade interna de segurança que nenhuma quantidade de mensagens consegue preencher completamente.

[ Artigo 22: Por que me sinto insegura mesmo quando sei o que estou fazendo?]

Olhar para isso não significa culpar a pessoa insegura.

Significa perceber que uma relação pode revelar necessidades que já existiam antes dela.

E talvez seja justamente essa uma das funções mais interessantes dos relacionamentos na experiência humana: eles mostram lugares de nós mesmos que, sozinhos, talvez demorássemos muito mais para perceber.

E quando a relação realmente não é segura?

Também precisamos fazer uma distinção importante.

Falar sobre insegurança não significa colocar toda dúvida dentro da cabeça de quem sente.

Nem toda desconfiança é exagero.

Nem todo ciúme surge sem motivo.

Nem todo medo é irracional.

Existem relações marcadas por manipulação, controle, humilhação, isolamento, ameaças ou violência.

Nesses casos, a questão não é simplesmente aprender a “confiar mais”.

Comportamentos de controle coercitivo, por exemplo, podem envolver monitorar a pessoa, limitar seu contato com amigos e familiares, controlar decisões ou restringir acesso a dinheiro. Esses comportamentos são descritos pela American Psychological Association como formas de agressão psicológica e controle dentro de relações abusivas.

Isso nos lembra de uma coisa importante:

compreender nossa insegurança não significa ignorar o comportamento do outro.

Precisamos olhar para os dois lados.

Para aquilo que sentimos.

E para aquilo que realmente está acontecendo.

Talvez segurança seja poder continuar sendo você

No começo, talvez a pergunta fosse:

“Como faço para ter certeza de que essa pessoa gosta de mim?”

Agora podemos fazer perguntas diferentes.

Consigo ser eu mesmo nessa relação?

Consigo falar sobre aquilo que sinto?

Posso discordar?

Posso estabelecer limites?

Tenho espaço para continuar cuidando das outras áreas da minha vida?

Consigo confiar sem precisar vigiar?

Consigo estar próximo sem perder minha autonomia?

Consigo reconhecer um problema sem transformar imediatamente tudo em uma ameaça?

E, principalmente:

se essa relação acabar, eu continuarei sabendo quem sou?

Essa última pergunta pode ser difícil.

Mas ela toca em algo importante.

Uma relação pode fazer parte da nossa identidade sem ser toda a nossa identidade.

Podemos amar profundamente alguém sem deixar de existir como indivíduo.

Podemos sofrer uma perda sem perder completamente a nós mesmos.

Podemos desejar ser escolhidos sem transformar a escolha do outro em medida do nosso valor.

Talvez seja isso que estamos procurando quando buscamos segurança

No fundo, talvez muitas perguntas sobre relacionamento não estejam procurando apenas informações.

Esteja procurando tranquilidade.

Queremos saber se somos amados.

Queremos saber se podemos confiar.

Queremos saber se estamos fazendo a coisa certa.

Queremos saber se a relação vai durar.

Queremos saber se o outro vai permanecer.

Queremos saber se estamos seguros.

Mas algumas dessas respostas simplesmente não podem ser garantidas antecipadamente.

A vida não oferece esse tipo de contrato.

E talvez amadurecer nas relações tenha menos a ver com encontrar maneiras de eliminar toda incerteza e mais com desenvolver recursos para atravessá-la.

Conversar quando precisamos conversar.

Observar quando precisamos observar.

Estabelecer limites quando algo ultrapassa aquilo que podemos aceitar.

Pedir ajuda quando a situação ultrapassa aquilo que conseguimos resolver sozinhos.

E aprender a permanecer inteiros mesmo quando o outro tem liberdade para escolher.

O que o amor pode ser quando não precisamos controlar o outro?

Talvez amor não seja a promessa de nunca perder.

Talvez não seja a certeza de que tudo dará certo.

Talvez também não seja a intensidade que sentimos quando temos medo de perder alguém.

Talvez exista amor quando duas pessoas conseguem construir proximidade sem transformar proximidade em posse.

Quando existe espaço para falar e ouvir.

Para cuidar e ser cuidado.

Para confiar sem vigiar.

Para estar junto sem desaparecer.

E talvez seja justamente por isso que as relações mereçam um lugar dentro de uma biblioteca sobre a experiência humana.

Porque elas não falam apenas sobre romance.

Falam sobre quem somos quando precisamos confiar, esperar, escolher, ceder, estabelecer limites, lidar com rejeição, enfrentar conflitos e continuar sendo nós mesmos na presença de outra pessoa.

A pergunta pode começar com:

“Será que essa pessoa gosta de mim?”

Mas, muitas vezes, existe uma investigação muito maior por trás dela:

“Como posso me relacionar com outra pessoa sem deixar de me relacionar comigo mesmo?”

Toda pergunta tem uma história.

E talvez segurança nas relações não seja conseguir controlar a história do outro.

Talvez seja aprender a participar da nossa própria história com mais consciência.