Por que sinto insegurança mesmo quando sei o que estou fazendo?
Por que me sinto insegura mesmo sabendo o que faço? Entenda a insegurança, a autocrítica e como construir a confiança sem precisar eliminar todas as dúvidas.
APRENDIZAGEM
Você sabe o que está fazendo.
Já fez aquilo antes. Estudou. Aprendeu. Tem experiência. Talvez outras pessoas até reconheçam sua capacidade.
Mas, ainda assim, existe uma voz dentro de você perguntando:
“Será que está certo?”
“Será que eu realmente sei o que estou fazendo?”
“E se eu estiver enganada?”
“E se descobrirem que eu não sou tão boa quanto imaginam?”
Essa sensação pode ser especialmente confusa.
Porque, racionalmente, você sabe.
Mas emocionalmente, não se sente tão segura.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das partes mais difíceis da insegurança: ela nem sempre acompanha a realidade daquilo que somos capazes de fazer.
Saber fazer não é o mesmo que sentir-se segura
Podemos ter competência sem sentir confiança.
Uma pessoa pode exercer determinada profissão há anos e ainda hesitar antes de apresentar uma ideia.
Pode conhecer profundamente seu trabalho e sentir medo de cometer um erro simples.
Pode ter recebido elogios e, mesmo assim, lembrar muito mais da única crítica que recebeu.
Pode olhar para alguém menos experiente e pensar que aquela pessoa parece muito mais preparada.
A competência está de um lado.
A percepção que temos de nós mesmos está do outro.
E nem sempre elas caminham juntas.
Por isso, talvez não seja suficiente perguntar:
“Eu sei fazer isso?”
Às vezes precisamos perguntar também:
“Por que, mesmo sabendo fazer, eu ainda não consigo confiar que sei?”
De onde pode vir tanta insegurança?
A insegurança não nasce sempre do mesmo lugar.
Para algumas pessoas, ela pode ter relação com experiências em que errar foi recebido com críticas duras.
Para outras, pode ter começado muito cedo, quando aprenderam a associar valor pessoal a desempenho.
Também pode surgir depois de períodos em que a confiança foi abalada, de mudanças importantes ou de situações em que nos sentimos diminuídos.
E existe ainda algo que costuma passar despercebido: a autocrítica excessiva.
Quando somos muito mais exigentes conosco do que seríamos com qualquer outra pessoa, nenhum resultado parece suficiente.
Você termina uma tarefa e pensa no que poderia ter feito melhor.
Recebe um elogio e imediatamente encontra uma razão para não acreditar nele.
Comete um pequeno erro e passa horas pensando nele.
Faz dez coisas corretamente, mas a única que saiu diferente do esperado ocupa todo o espaço.
Aos poucos, a própria voz interior pode se tornar uma espécie de avaliador permanente.
E viver sob avaliação constante é uma maneira bastante eficaz de se sentir inseguro.
Quando a nossa própria voz começa a duvidar de nós
Imagine uma pessoa que entrega um trabalho importante.
O trabalho foi bem feito.
Ela conhece o assunto.
Mas, antes mesmo de receber qualquer retorno, começa a pensar:
“Talvez não esteja tão bom.”
“Talvez eu tenha esquecido alguma coisa.”
“Talvez percebam que eu não sou tão competente.”
Se recebe um comentário positivo, pensa:
“Foi porque tiveram boa vontade.”
Se recebe uma observação, pensa:
“Eu sabia. Não sou boa nisso.”
Perceba o que aconteceu.
A realidade deixou de ser suficiente para formar uma opinião sobre ela mesma.
A avaliação passou a depender de uma interpretação interna que quase sempre encontra alguma coisa para questionar.
Essa é uma das formas pelas quais a insegurança pode se manter mesmo quando existem evidências de competência.
Às vezes enxergamos muito mais aquilo que falta do que aquilo que já construímos
Existe outra armadilha.
Quando estamos inseguros, podemos olhar para aquilo que ainda não sabemos e esquecer tudo aquilo que já aprendemos.
Uma pessoa muda de área profissional e pensa:
“Eu não conheço esse mercado.”
E talvez seja verdade.
Mas ela também pode ter dez, quinze ou vinte anos de experiências que continuam fazendo parte de quem ela é.
Alguém começa a estudar uma nova habilidade e pensa:
“Tem gente que sabe muito mais do que eu.”
Provavelmente sempre haverá.
Mas isso não transforma o conhecimento que ela já possui em algo menor.
Aquilo que ainda não sabemos não apaga aquilo que já aprendemos.
Essa percepção é especialmente importante quando estamos tentando recuperar a confiança profissional depois de uma fase difícil.
Depois de uma interrupção, de uma mudança ou de um período afastado do mercado, é comum olhar para o tempo que passou e enxergar apenas o que ficou para trás.
Mas experiência não desaparece simplesmente porque ficou algum tempo sem ser usada.
Ela pode precisar ser atualizada, reorganizada ou aplicada de uma maneira diferente.
Isso é diferente de começar do zero.
E as críticas?
Nem sempre a insegurança nasce dentro de nós.
Às vezes ela foi alimentada por experiências externas.
Uma crítica repetida durante anos pode ganhar uma força desproporcional.
Uma comparação constante pode fazer alguém acreditar que está sempre atrás.
Uma pessoa que cresceu ouvindo que poderia fazer melhor pode chegar à vida adulta sem saber reconhecer quando já fez o suficiente.
E, quando isso acontece, uma crítica atual pode tocar em muitas outras que vieram antes.
Por isso, entender por que as críticas dos outros mexem tanto comigo pode ser uma investigação importante para quem vive em constante dúvida sobre si mesmo.
Não porque toda crítica seja injusta.
Mas porque existe uma diferença entre ouvir uma avaliação e transformar aquela avaliação em uma definição sobre quem somos.
Insegurança não significa incapacidade
Talvez essa seja uma das distinções mais importantes.
Sentir insegurança não é uma prova de incompetência.
Você pode estar inseguro e ainda assim saber o que está fazendo.
Pode estar com medo e ainda assim estar preparado.
Pode ter dúvidas e ainda assim tomar uma boa decisão.
Pode não se sentir pronto e ainda assim possuir condições suficientes para dar o próximo passo.
A emoção que sentimos diante de uma situação não é necessariamente uma medida precisa da nossa capacidade.
Às vezes, ela apenas revela que aquilo importa.
Ou que existe algo novo envolvido.
Ou que estamos saindo de uma posição conhecida.
Ou que nossa confiança ainda não acompanhou aquilo que já conseguimos aprender.
O problema começa quando esperamos sentir segurança para agir
Existe uma expectativa bastante comum:
“Quando eu estiver mais segura, eu faço.”
“Quando eu tiver certeza, eu começo.”
“Quando eu sentir que estou preparada, eu me posiciono.”
Só que a segurança absoluta raramente chega.
E, se ela se tornar uma condição para agir, podemos permanecer esperando por muito tempo.
Em muitas situações, a confiança não aparece antes da experiência.
Ela é construída também depois que fazemos alguma coisa, enfrentamos o resultado e percebemos que conseguimos lidar com o que aconteceu.
Você apresenta a ideia.
Ela pode ser aceita ou questionada.
Você participa da reunião.
Pode cometer um erro ou receber um elogio.
Você começa um projeto.
Pode descobrir que algumas coisas funcionam e outras precisam ser modificadas.
A experiência vai mostrando que você não precisa prever tudo para conseguir lidar com o que vier.
E isso pode mudar profundamente a relação que temos com a própria insegurança.
Confiar em si não significa acreditar que nunca vai errar
Talvez tenhamos aprendido uma definição equivocada de confiança.
Imaginamos uma pessoa confiante como alguém que entra em qualquer lugar sem hesitar, responde tudo com segurança e nunca parece ter dúvidas.
Mas essa imagem é quase uma caricatura.
Confiar em si pode significar algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais profundo:
acreditar que, mesmo sem saber tudo, você conseguirá lidar com aquilo que ainda não sabe.
Você pode errar.
Pode precisar perguntar.
Pode mudar de ideia.
Pode descobrir que uma escolha não funcionou.
Pode precisar aprender novamente.
Nada disso elimina automaticamente sua capacidade.
A confiança começa a ficar mais sólida quando deixa de depender da perfeição.
A insegurança pode mudar de lugar
Talvez o objetivo não seja fazer a insegurança desaparecer.
Talvez seja impedir que ela ocupe o lugar de decisão.
Você pode sentir medo e ainda escolher.
Pode duvidar e ainda tentar.
Pode ouvir uma crítica sem permitir que ela defina seu valor.
Pode reconhecer uma falha sem transformar aquela falha em identidade.
E pode perceber que não precisa passar o tempo inteiro provando para si mesma que é capaz.
Existe uma diferença entre buscar melhorar e acreditar que nunca somos bons o bastante.
A primeira pode nos fazer crescer.
A segunda pode nos manter permanentemente em dívida conosco.
E se você começasse a olhar para si com mais justiça?
Isso não significa ignorar seus erros.
Nem fingir que tudo está bem.
Nem repetir frases positivas diante do espelho.
Significa olhar para a própria história com o mesmo equilíbrio que talvez você teria ao olhar para outra pessoa.
Se alguém que você conhece tivesse passado por tudo o que você passou, aprendido tudo o que você aprendeu e chegado até onde você chegou, você diria que essa pessoa não sabe fazer nada?
Provavelmente não.
Então por que essa é a conclusão que você permite que sua própria autocrítica repita?
Talvez reconstruir a confiança também envolva aprender a reconhecer evidências que a insegurança costuma esconder.
As coisas que você aprendeu.
Os problemas que já resolveu.
As situações que enfrentou.
As vezes em que errou e continuou.
As vezes em que não tinha certeza e, ainda assim, encontrou uma saída.
Isso não transforma você em alguém infalível.
Transforma você em alguém que começa a conhecer melhor a própria capacidade de lidar com a vida.
Talvez a verdadeira confiança esteja em saber que você pode lidar com o que vier
Existe uma confiança frágil que depende de tudo dar certo.
“Eu confio em mim porque sei que vou conseguir.”
Mas existe outra, mais profunda:
“Eu confio em mim porque, mesmo que alguma coisa não saia como espero, acredito que conseguirei lidar com isso.”
A segunda não exige previsão.
Não exige perfeição.
Não exige ausência de medo.
Ela permite que a pessoa avance sem precisar eliminar todas as dúvidas antes.
E talvez seja justamente isso que a torna mais real.
Porque ninguém consegue garantir que nunca vai errar.
Ninguém sabe exatamente o que encontrará em todos os próximos capítulos.
Ninguém consegue controlar completamente a avaliação dos outros.
Mas podemos construir uma relação diferente com nós mesmos.
Uma relação em que a dúvida não seja automaticamente interpretada como incapacidade.
Em que um erro não seja uma sentença.
Em que uma crítica não seja uma definição.
E em que aquilo que ainda precisamos aprender não faça desaparecer tudo aquilo que já sabemos.
Você sabe o que está fazendo. Mas consegue reconhecer isso?
Talvez essa seja a pergunta que permaneça.
Não:
“Como faço para nunca mais me sentir insegura?”
Mas:
“Como posso continuar confiando em mim mesmo quando ainda existe alguma dúvida?”
Talvez a resposta não esteja em eliminar a insegurança.
Talvez esteja em conhecê-la.
Entender de onde ela vem.
Perceber quando ela está tentando protegê-lo e quando está impedindo você de avançar.
Reconhecer quando a autocrítica está sendo útil e quando se transformou em uma voz que nunca considera suficiente aquilo que você faz.
E, principalmente, começar a separar aquilo que você sente sobre sua capacidade daquilo que sua própria história demonstra sobre ela.
Porque pode existir uma diferença enorme entre não saber fazer alguma coisa e não conseguir acreditar que sabe.
E talvez muitas pessoas estejam vivendo exatamente nesse espaço.
Sabem mais do que acreditam.
Podem mais do que imaginam.
Mas ainda estão esperando sentir uma segurança que talvez só apareça depois que decidirem confiar um pouco mais naquilo que já construíram.
Toda pergunta tem uma história.
E talvez a próxima seja:
O que acontece quando a nossa própria voz se torna mais dura conosco do que qualquer pessoa ao nosso redor?
