Por que as críticas dos outros mexem tanto comigo?

Por que as críticas dos outros mexem tanto comigo? Entenda por que a opinião alheia pode afetar sua segurança e como aprender com críticas sem se perder.

APRENDIZAGEM

Sentiora

9/17/20267 min ler

worm's-eye view photography of concrete building
worm's-eye view photography of concrete building

Há críticas que a gente escuta e esquece alguns minutos depois.

E há outras que ficam.

Uma frase dita por alguém pode continuar ecoando durante horas, dias ou até anos. Às vezes, a pessoa que fez o comentário já nem se lembra do que disse, mas nós continuamos voltando àquela cena.

“Será que ela tem razão?”

“Será que eu realmente não sou tão boa quanto pensava?”

“E se todo mundo estiver percebendo uma coisa que eu não consigo perceber?”

Nem sempre o que dói em uma crítica é a crítica em si.

Às vezes, ela toca justamente no lugar em que já existia uma dúvida.

Quando isso acontece, uma observação aparentemente pequena pode ganhar um tamanho enorme dentro de nós.

E talvez seja por isso que algumas pessoas tenham tanta dificuldade para receber críticas, mesmo quando sabem racionalmente que ninguém acerta sempre.

Quando uma crítica encontra uma insegurança

Imagine alguém que sempre teve dúvidas sobre a própria capacidade.

Ela estuda, se prepara, faz o que precisa ser feito. Mesmo assim, existe aquela voz interna dizendo que talvez não seja suficientemente boa.

Um dia, alguém faz uma crítica sobre seu trabalho.

Pode nem ser uma crítica tão grave.

Mas, em vez de pensar:

“Essa pessoa não gostou dessa parte do que eu fiz.”

ela pensa:

“Eu não sou boa no que faço.”

Perceba a diferença.

A primeira frase fala sobre uma situação específica.

A segunda transforma aquela situação em uma definição sobre quem somos.

É nesse ponto que a crítica deixa de ser apenas uma informação e passa a atingir nossa identidade.

Por isso, às vezes, entender por que me sinto insegura mesmo quando sei o que estou fazendo é uma parte importante dessa investigação.

A insegurança não necessariamente desaparece porque adquirimos conhecimento.

Podemos saber fazer alguma coisa e, ainda assim, duvidar de nós mesmos quando alguém questiona o nosso trabalho.

Nem toda crítica significa que existe algo errado com você

Existe uma diferença importante entre receber uma crítica e acreditar nela.

Uma pessoa pode apontar um erro real.

Outra pode interpretar uma situação de maneira diferente.

Outra pode estar expressando uma preferência pessoal.

E outra pode simplesmente estar projetando sobre você aquilo que ela pensa, teme ou espera.

Todas essas situações podem soar parecidas quando estamos emocionalmente envolvidos.

Por isso, antes de transformar uma crítica em uma conclusão sobre nós mesmos, vale perguntar:

O que exatamente essa pessoa está dizendo?

Não:

“Ela acha que eu sou incapaz.”

Mas:

“Qual comportamento, escolha ou resultado ela está questionando?”

Essa pequena mudança de pergunta pode abrir espaço para pensar.

Porque uma crítica específica pode ser analisada.

Uma condenação sobre quem somos é muito mais difícil de enfrentar.

A crítica pode ensinar alguma coisa — sem definir quem somos

Aprender também significa descobrir que nem tudo o que fazemos funciona.

Essa talvez seja uma das partes mais desconfortáveis do desenvolvimento.

Quando estamos aprendendo alguma coisa nova, inevitavelmente vamos errar.

Vamos esquecer.

Vamos fazer de um jeito ruim.

Vamos precisar tentar novamente.

E, em algum momento, alguém poderá perceber aquilo e comentar.

Se interpretarmos cada erro como uma prova de incapacidade, aprender se torna muito mais pesado.

A pessoa começa a evitar situações nas quais poderia ser avaliada.

Deixa de perguntar.

Não mostra o que fez.

Adia projetos.

Desiste antes de terminar.

E, sem perceber, passa a proteger a própria imagem em vez de continuar se desenvolvendo.

É uma armadilha silenciosa.

Porque, para nunca ser criticada, a pessoa também pode acabar evitando experiências nas quais teria a oportunidade de crescer.

Existe uma diferença entre crítica e rejeição

Talvez uma das razões pelas quais as críticas doam tanto seja porque, em alguns momentos da nossa vida, aprendemos a associar desaprovação com rejeição.

Se alguém desaprova o que fizemos, sentimos como se estivesse desaprovando quem somos.

Isso pode acontecer na família, na escola, no trabalho, nos relacionamentos e em muitos outros ambientes.

Uma criança que escuta repetidamente que nunca faz nada direito pode crescer prestando atenção exagerada aos sinais de desaprovação.

Um adulto que passou anos sendo comparado com irmãos, colegas ou outras pessoas pode começar a interpretar qualquer observação como confirmação de que está atrás dos demais.

Por isso, por que me comparo tanto com outras pessoas? também é uma pergunta que conversa com esta.

A comparação cria uma espécie de ranking interno.

E, quando vivemos nos comparando, uma crítica pode parecer confirmar que estamos perdendo.

Mas a vida não é uma competição permanente.

E uma crítica não é uma classificação do nosso valor.

E quando a crítica é verdadeira?

Essa talvez seja a parte mais difícil.

Porque nem toda crítica é injusta.

Às vezes, alguém aponta exatamente aquilo que precisamos enxergar.

Podemos ter cometido um erro.

Podemos ter tratado alguém mal.

Podemos estar insistindo em uma maneira de fazer alguma coisa que claramente não está funcionando.

Podemos estar deixando de perceber uma limitação nossa.

Nesses momentos, rejeitar automaticamente toda crítica também não ajuda.

O objetivo não é se tornar uma pessoa que pensa:

“Eu não me importo com a opinião de ninguém.”

Isso pode ser apenas outra forma de defesa.

O caminho mais maduro talvez seja conseguir pensar:

“Eu posso ouvir o que você está dizendo sem precisar transformar isso em uma sentença sobre quem eu sou.”

Posso avaliar.

Posso concordar.

Posso discordar.

Posso mudar.

Posso até reconhecer:

“Você tem razão.”

E nada disso precisa destruir a maneira como me enxergo.

A autocrítica pode ser ainda mais cruel

Existe outro detalhe importante.

Às vezes, a crítica que mais nos machuca nem sequer vem de fora.

Ela apenas desperta aquela que já estava dentro.

Uma pessoa recebe um comentário e, imediatamente, começa a completar a frase:

“Eu sabia.”

“Eu nunca consigo fazer nada direito.”

“Todo mundo é melhor do que eu.”

“Eu não deveria nem ter tentado.”

Nesse momento, a outra pessoa fez uma crítica.

Mas nós fazemos dezenas de outras contra nós mesmos.

É por isso que desenvolver uma relação mais equilibrada com a própria voz interna importa tanto.

A autocrítica pode parecer uma tentativa de nos manter alertas.

Como se falar duro consigo mesmo impedisse novos erros.

Mas viver permanentemente sob julgamento também pode dificultar a aprendizagem.

Quem tem medo constante de errar pode começar a ter medo de tentar.

Talvez você não precise se tornar imune às críticas

Existe uma expectativa curiosa de que, em algum momento, teremos autoestima suficiente para não nos importarmos mais com o que os outros pensam.

Mas será que esse é realmente o objetivo?

Somos seres relacionais.

As pessoas importam para nós.

A opinião de algumas pessoas importa mais do que a opinião de outras.

É natural querer ser respeitado, reconhecido e compreendido.

Talvez o amadurecimento não esteja em deixar de sentir.

Talvez esteja em não permitir que aquilo que sentimos decida automaticamente o que vamos pensar sobre nós mesmos.

Eu posso ficar triste com uma crítica.

Posso me sentir inseguro.

Posso passar algumas horas pensando sobre aquilo.

Mas, depois, posso voltar à pergunta mais importante:

O que existe de útil aqui para mim?

Essa pergunta devolve uma parte do controle.

Aprender também é aprender a receber desconforto

Quando começamos alguma coisa nova, queremos muitas vezes a confirmação de que estamos fazendo tudo certo.

Só que o desenvolvimento raramente funciona assim.

Aprender envolve experimentar.

Experimentar envolve errar.

Errar pode gerar críticas.

E críticas podem provocar desconforto.

Se precisarmos eliminar todo desconforto antes de continuar, provavelmente vamos interromper muitos processos importantes.

Isso vale para estudar uma nova habilidade, começar um projeto, mudar de profissão, voltar ao mercado de trabalho ou simplesmente tentar fazer alguma coisa diferente daquilo que sempre fizemos.

Por isso, talvez uma pergunta mais útil do que:

“Como faço para nunca mais me sentir mal quando me criticarem?”

seja:

“Como posso continuar aprendendo mesmo quando uma crítica me faz duvidar de mim?”

Essa é uma pergunta diferente.

Ela não promete eliminar a insegurança.

Ela nos convida a não ficar paralisados por ela.

O que fazer quando uma crítica mexer muito com você?

Não existe uma fórmula para deixar de sentir imediatamente.

Mas pode ajudar separar algumas coisas.

Primeiro: o que foi dito?

Tente retirar a interpretação emocional e identificar as palavras concretas.

Segundo: existe algum fato que sustenta essa crítica?

Se existir, talvez haja alguma coisa que possa ser aprendida ou corrigida.

Terceiro: quem está fazendo essa crítica?

A opinião de uma pessoa que conhece profundamente determinada área pode ter um peso diferente da opinião de alguém que não conhece a situação.

Isso não significa ignorar automaticamente quem discorda de você. Significa considerar o contexto.

Quarto: essa crítica fala sobre um comportamento ou virou uma definição sobre quem você é?

“Você poderia ter feito isso de outra maneira” é diferente de “você é incapaz”.

Quinto: o que você fará com essa informação?

Talvez você mude alguma coisa.

Talvez mantenha sua decisão.

Talvez precise investigar melhor.

Mas tente não entregar imediatamente à outra pessoa o poder de definir a sua conclusão.

E se eu estiver sempre com medo de errar?

Talvez essa seja uma pergunta ainda mais profunda.

Porque, quando a necessidade de aprovação fica muito forte, podemos começar a viver tentando evitar qualquer situação em que alguém possa nos julgar.

Só que uma vida protegida de críticas também pode ser uma vida protegida de experiências.

Você não aprende aquilo que nunca tenta.

Não descobre novas possibilidades quando permanece sempre no conhecido.

Não desenvolve uma habilidade sem passar pela fase em que ainda não sabe fazer direito.

E não constrói confiança apenas pensando sobre confiança.

Em algum momento, é preciso fazer.

Talvez seja justamente aí que a aprendizagem se encontre com a coragem.

Não a coragem de nunca sentir medo.

Mas a coragem de continuar mesmo sabendo que alguém pode discordar, criticar ou não reconhecer imediatamente aquilo que você está tentando construir.

Você não precisa acreditar em toda voz que fala sobre você

Ao longo da vida, muitas pessoas terão opiniões sobre quem somos.

Algumas estarão certas em determinadas situações.

Outras estarão completamente erradas.

Algumas enxergarão capacidades que nós ainda não reconhecemos.

Outras enxergarão apenas aquilo que esperavam encontrar.

E haverá momentos em que nós mesmos estaremos confusos.

Por isso, talvez amadurecer seja também aprender a ocupar um espaço entre dois extremos:

não acreditar cegamente em toda crítica;

mas também não rejeitar toda crítica apenas porque ela incomoda.

Escutar.

Investigar.

Separar.

Aprender.

Escolher.

E seguir.

Porque uma crítica pode mostrar uma coisa que precisamos melhorar.

Mas ela não precisa contar toda a história sobre quem somos.

E talvez a verdadeira segurança não seja chegar ao ponto em que ninguém mais consegue nos atingir.

Talvez seja chegar ao ponto em que, mesmo quando uma palavra dói, ainda conseguimos voltar para nós mesmos e perguntar:

“O que disso eu quero levar comigo?”

O restante pode ficar para trás.